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Sussurros da Madrugada
Staniando

Sussurros da Madrugada

Naquela noite, deitei tarde e imaginei acordar apenas no outro dia, mas o sono se revelou esquivo, como uma promessa não cumprida. A expectativa de um descanso tranquilo se dissipou rapidamente, dando lugar a uma vigília inesperada. Enquanto o silêncio da casa me envolvia, os barulhos noturnos começaram a se destacar, formando uma trilha sonora íntima e perturbadora. Na quietude daquela madrugada, cada ruído ganhou vida própria, transformando-se em um companheiro inesperado. Foram confidências invisíveis, segredos contados pelo escuro que só podiam ser ouvidos por quem estava desperta. E o barulho do ar condicionado, com seu zumbido constante, criou uma melodia mecânica que se misturou aos meus pensamentos. Ele soprava um vento frio e rítmico, tentando trazer conforto e silêncio à minha mente inquieta, mas apenas destacava minha vigília involuntária.

Lá fora, a chuva teimava em cair, desenhando padrões invisíveis e imagináveis na escuridão. O som das gotas, que se chocavam contra o telhado da área externa, era, ao mesmo tempo, calmante e insistente. Era como se a natureza estivesse contando histórias antigas, sussurrando lendas contadas por minha mãe, que só se revelam a mim nas noites chuvosas.

Em algum lugar próximo, o ping-ping de água caindo em um vasilhame esquecido se destacou naquela sinfonia noturna. No início, aquele sonzinho inofensivo me perturbou, inquietando-me. Como ele se atrevia a incomodar minha silenciosa admiração noturna? Depois, escutando-o melhor, percebi que cada gota parecia marcar o tempo, tornando a passagem dos minutos quase tocável. Aquele som ritmado, embora suave, ressoava como um lembrete da persistência e da constância do mundo exterior, mesmo quando tudo me parecia parado.

Lá fora, um cachorro latiu ao longe. Seu latido era um eco distante, um sinal de vida na quietude da madrugada. Pergunto-me o que ele vê, o que o inquieta, talvez a chuva que continuava a cair ou, quem sabe, um gato passando sorrateiro, também fugindo da chuva. Seu latido se tornou um ponto de conexão, um lembrete de que, mesmo na aparente solidão da noite, eu não estava totalmente só.

Alguns passos apressados e vozes perdidas se fizeram ouvir ao longe, fragmentos de conversas passaram a flutuar pelo ar da noite. Fiquei imaginando quem eram, o que faziam naquela noite chuvosa, o que discutiam, quais histórias compartilhavam entre sussurros e risos abafados. Essas vozes, que pareciam não pertencer ao mundo material, fizeram-me sentir conectada a outras vidas, a outras realidades que teimavam em coexistir em minha insônia, trazendo-me uma sensação de companhia em meio à minha solidão noturna. As vozes foram se afastando, afastando, até deixarem de ser ouvidas.

De repente, uma sirene cortou o ar. Era um som agudo e insistente que imediatamente me tirou da semiconsciência. Fiquei imaginando o que teria acontecido. Um acidente, uma emergência médica? A sirene trouxe consigo um senso de urgência, uma lembrança de minha fragilidade e da imprevisibilidade da vida. Cada vez que o som ia se afastando, sentia uma mistura de alívio e curiosidade insatisfeita.

E então, o silêncio. Mas não é um silêncio absoluto. É um silêncio que pulsa com os sons sutis da noite – o zumbido do ar-condicionado, o latido ocasional do cachorro, o distante murmúrio da cidade adormecida. É um silêncio que fala, que sussurra histórias e pensamentos que só emergem quando o mundo desacelera. Foi uma noite nada silenciosa, onde cada som teve seu próprio significado e cada ruído, uma história por trás.

Enquanto, deitada, ouvia aqueles sons, senti-me parte de um universo maior, onde cada pequeno ruído era uma peça de um quebra-cabeça vasto e misterioso. A minha insônia transformou aquela noite em um espaço de reflexão, em um momento de intimidade com o mundo ao meu redor. E, de alguma forma, encontrei um estranho conforto nesses sussurros noturnos, naqueles sons que preenchiam a escuridão e me acompanharam até que, finalmente, o sono viesse me buscar.

Por Profa. Dra. Stânia Nágila Vasconcelos Carneiro

Por: Neuton Júnior

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