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Staniando… Minha Peixinha Dory
Staniando

Staniando… Minha Peixinha Dory

Por Prof.ª Dra. Stânia Nágila Vasconcelos Carneiro

 “Mamãe, onde tem uma agulha?”. E ela, sem se levantar da cadeira, dizia; “Vá no móvel do quarto, abra a segunda gaveta, retire uma caixinha azul e lá você encontrará a agulha. Depois, deixe no mesmo lugar”. Isto me encantava nela: sempre organizada, disciplinada, dedicada, extraordinária (esta última caraterística ela ainda possui), as outras incontáveis qualidades estão se perdendo, dia após dia. Lembro-me, com saudades, da costumeira vivacidade dos seus passos ou o prazer que tinha ao executar uma tarefa.

É aí que entra a carismática e amável peixinha Dory, do filme Procurando Nemo (acho que todos já assistiram a este filme e se apaixonaram por esta peixinha que tem amnésia). Pois é, hoje, tenho uma peixinha Dory em minha vida, talvez tenha me dado conta agora do tamanho do amor que sinto por ela. Minha peixinha Dory é minha mãe Vilany, de 82 anos, que se encontra há 4 anos com uma síndrome chamada de Síndrome Semântica. Mamãe, assim como a Dory, também, está esquecendo de tudo e de todos.

O comprometimento da memória das duas Dorys se revela em várias instâncias. A do filme tem problemas de aprendizagem de nomes (particularmente, Nemo), aprender e reter novas informações, e até mesmo lembrar o fato de que ela estava envolvida em uma conversa poucos minutos antes. Além disso, Dory tem dificuldade em lembrar as direções de navegação específicas, e em saber o que ela está fazendo e por que ela está fazendo isso.

A “minha peixinha”, por sua vez, não lembra mais do seu próprio nome ou dos nomes dos seis filhos que tanto ama, esqueceu sua história e os sabores das comidas, está diminuindo o vocabulário, perdendo, aos poucos, os movimentos. Sinto que estou perdendo, aos poucos, minha peixinha! É complicado entender como é essa limitação. E é um grande aprendizado, até lidar com essa perda, porque é uma perda em vida, na verdade.

No filme, Nemo (o peixinho perdido) nunca teria sido encontrado se não fosse o envolvimento de Dory na vida de Marlin (pai de Nemo), ao longo da jornada. Na minha vida, tudo o que sou e es­pero ser devo a ela. Os ensinamentos, a determinação e dedicação total desta “minha peixinha” foram determinantes, indispensáveis em minha formação espiritual, de caráter e de valores. Não há dúvida de que a amnésia de Dory é um obstáculo; mas seu otimismo lhe permite superá-lo e ser capaz de lidar com várias situações difíceis, ao longo da aventura em que ela e Marlin embarcam.

No filme, Marlin, perto do fim da viagem, perde a esperança, acreditando que Nemo está morto e começa a virar e ir para casa. Dory pede a ele para ficar, confessando que ela se lembra de coisas melhor quando está com ele, e que ela sente uma sensação de estar em casa com ele por perto. Neste momento, tenho vontade de “jogar tudo para o ar e me aconchegar em seu colo (no colo de minha peixinha), sentir seu cheiro e falar e falar, mesmo sabendo que ela não se interessa mais”, pois mesmo não lembrando mais de meu nome, ela sente o amor que pulsa em meu coração e algumas poucas lembranças vêm à tona, de vez em quando. Depois, vem o vazio e aí, confesso-lhes, sinto-me desmoronar, mas me lembro da Dory do filme: otimista, positiva, persistente, que, diante dos desafios e dificuldades dizia “continue a nadar”, um verdadeiro mantra no filme. Eu decido “continuar a nadar”, mesmo seguindo a maré, continuo “a nadar”.

Quando diagnosticada, eu imaginava que ficaria irritada quando ela fizesse a mesma pergunta mais de uma vez, mas agora eu oro para que ela consiga falar frases completas novamente ou se lembre de algum fato. Viver no mundo da minha mãe é viver sem passado, sem futuro, sempre presente.

Todos os médicos, todos os medicamentos, todos estes quatro anos de preocupações, não são capazes de trazer minha mãe de volta, também não são capazes de derrotar a magia dos momentos de quando estamos todos juntos: ela e nós, seus filhos e netos, hoje, suas lembranças e memória. Por que lhes conto isto? Para que se lembrem de que nosso tempo é limitado, nossos pais não estarão sempre disponíveis. Um dia as pernas começarão a tremer, os ombros se curvarão para frente, os dentes deixarão de mastigar e a visão ficará embaçada. Um dia, a energia deles diminuirá.

As oportunidades para honrar nossa mãe (nossos pais) têm um tempo limitado. Então, honre-os, hoje!

Por: Eliane Rodrigues

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