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Descanso sagrado e sociedade do cansaço
Pastoral Universitária

Descanso sagrado e sociedade do cansaço

Por Prof. Dr. Rudy Albino de Assunção.

Fiquei muito impactado quando li pela primeira vez as reflexões do filósofo coreano Byung-Chul Han sobre a Sociedade do cansaço. Segundo ele, vivemos sob o jugo do excesso de positividade, sob a ideia de que todos podem ter êxito se trabalharem incansavelmente. Cada um seria, nesta sociedade do desempenho, plenamente responsável por seu sucesso ou por seu fracasso. Mas qual o resultado disso tudo? Doenças neuronais: depressão, hiperatividade, esgotamento profissional (Burnout). Para Han, em nosso tempo, “o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho”. Onde quer que estejamos estamos trabalhando. Nunca saímos do trabalho, pois ele não sai de nós; ele vai conosco no celular e no notebook. Deste modo “somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos” (Vozes, 2015, p. 47).

Quem nunca perguntou a um amigo como ele estava e não acabou ouvindo como resposta: “Correndo, correndo como sempre”. Somos gente frenética, multitarefa, workaholic. Gente que trabalha de dia e estuda à noite, que confere as redes sociais a cada dois minutos, responde e-mails, vê TV, leva e busca os filhos na escola, cozinha, vende, troca, compra, investe no mercado financeiro, ouve podcasts e vai dormir tarde olhando o celular no escuro. Tudo só num dia.

Desaprendemos a parar. Agora descanso é turismo, ficar em casa é tédio e prisão. Isso nos adoece. G. K. Chesterton já dizia algo nesta linha em Ortodoxia: “O homem feliz é que faz coisas inúteis; o homem doente não dispõe de força suficiente para ficar sem fazer nada” (Mundo Cristão, 2008, p. 33).

Estamos morrendo por dentro. Não sabemos mais aproveitar os finais de semana, as férias, os recessos. Um exemplo: estamos na época de férias letivas e, provavelmente, voltaremos exaustos para o primeiro dia de aula do novo semestre.

A vida ativa subjugou a vida contemplativa. Fomos reduzidos ao animal laborans. Mas qual o impacto disso para a nossa vida espiritual? Han novamente pode nos ajudar: “O excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma” (ibid., p. 71). Por isso, nós, os cristãos, precisamos redescobrir o terceiro mandamento. Ele vale tanto quanto os outros. Devemos guardar o dia reservado para Deus, pensado por Ele para o bem do próprio homem (Ex 20, 8-11; Dt 5, 12-15). O sábado, no AT (shabbat: descanso) e, depois, o domingo, no NT, são a libertação dada por Deus para os nossos exageros laborais. Homens, animais e a própria terra precisam de uma trégua, de repouso (Lv 25, 1-7). A vida exige períodos sabáticos.

O Deus todo-poderoso, depois de tudo criar, fez uma coisa: descansou (Gn 2, 2-3). É o jeito da Bíblia nos falar dessa dimensão essencial de nossa existência. Não seremos perfeitos como Ele é (Mt 5, 48) se não o imitarmos neste ponto. São João Paulo II na Carta Dies Domini nos lembrava que “o repouso é coisa ‘sagrada’, constituindo a condição necessária para o homem se subtrair ao ciclo, por vezes excessivamente absorvente, dos afazeres terrenos e retomar consciência de que tudo é obra de Deus” (n. 65). (Prova disso é que férias, no inglês britânico, é Holiday, literalmente dia sagrado).

O mesmo Deus que passeava pelo jardim da criação ao entardecer (Ex 3, 8) e criou a Sabedoria que brinca na sua presença e na superfície da terra (Pv 8, 30-31) nos pede que consagremos tempo para rezar, ler, brincar com os filhos, assistir a uma série ou a um filme sem culpa, gastar tempo com conversa fiada, montar um quebra-cabeças… A vida cristã se nutre no altar, é vivida na escrivaninha ou na pia, mas deve ser experimentada também na rede, na cama, na beira da praia – mesmo no sono moderado.

Quem disse que você não pode estar cumprindo um dever religioso ao jogar baralho com os amigos ou pescando placidamente à beira de um rio? Coélet já nos ensinava que há momento e tempo para tudo neste mundo: “tempo de gemer, tempo de bailar” (Ecl 3, 4).

Por: Eduardo Sousa

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