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Staniando – O câncer, eu e minha “cara de minhoca”
STANIANDO

Staniando – O câncer, eu e minha “cara de minhoca”

Por Prof.ª Dra. Stânia Nágila Vasconcelos Carneiro

Era início de uma noite de terça-feira do mês de setembro de 2014. Havia feito meus exames de rotina há uma semana. No exame de mamografia nada constou, já no ultrassom, a médica “insistia” em ter visto algo, o que a impulsionou a ficar mexendo em minha mama esquerda por mais de 15 minutos.

“- Doutora, o que a senhora procura?”

“- Vi algo aqui que preciso encontrar de novo, mas não encontro.”

“- Sinal de que não tem nada.”

“- É claro que tem, e eu vou encontrar.”

E encontrou, graças à sua persistência e responsabilidade.

“- Leve o exame para sua mastologista. Ok?” Foi naquele momento que soube: “estou com câncer!”

Com o resultado nas mãos, minha médica solicitou a pulsão. Fiz no mesmo dia. Agora seria aguardar o resultado.

Três dias depois, era início de uma noite de terça-feira, no quarto de minha filha, quando lhe solicitei entrar no site do laboratório para ver o resultado do exame.

Meu marido estava em nosso banheiro fazendo a barba. Entrei e disse, por suas costas:

“- Estou com câncer.”

“- Como é?”

“- Olhei o resultado do exame do laboratório na internet, estou com um carcinoma. Pesquisei. É câncer!”

Dei as costas e saí. Na sala, abri o computador e digitei carcinoma lobular invasivo. Depois, soube que Sofia, minha filha, fazia a mesma coisa em seu quarto. Lembro-me de ter ficado muito tempo pesquisando e pesquisando. Precisava conhecer o que estava tentando tirar meu sossego, minha viagem (estava com uma marcadinha, certinha!), minha paz, minha saúde, minha vida! Parto do princípio de que, conhecendo o inimigo e seus pontos fracos, posso vencê-lo.

Soube, depois de muito tempo, que meu marido passou aquela noite chorando, na cozinha, escondido de mim, que dormia tranquilamente. Não me perguntem como, mas eu dormi como se nada fosse mudar, como se fosse uma chuva forte, mas passageira. Até hoje não entendo!

No outro dia, cedinho, liguei para minha mastologista e lhe disse o resultado do exame e o que eu já havia pesquisado sobre ele, fiz-lhe não sei quantas perguntas, dúvidas do assunto pesquisado e ela “me sugeriu” conversarmos pessoalmente, já que eu “estava sabendo muito com o “Dr. Google”.

Foi assim meu diagnóstico. Depois disso, exames e mais exames, encaminhamento ao oncologista e ao cirurgião plástico da equipe até a pergunta fatídica:

“- D. Stânia, a senhora tem três opções: quadrante, retirada da mama diagnosticada ou mastectomia total”. Estava com meu marido, aliás, ele me acompanhou em tudo e em todos os momentos, como sempre! “- Pode voltar na mesma mama ou na outra?” Perguntei.

“- Pode sim. A medicina não é exata.”

“- Mastectomia total”. Respondi-lhe.

“- A senhora pode pensar e me retornar ama- nhã quando formos fazer “a marcação” na mama para a cirurgia”, disse ele olhando para meu marido, como se pedindo ajuda. Uma ajuda que não veio. “Ela é quem sabe, o que ela disser é o que deve ser feito”, afirmou ele.

“- Não! Já decidi, quero retirar tudo!”

No dia seguinte, vestindo-me para ir ao hospital fazer a cirurgia, olhei-me no espelho e desejei que o tempo parasse ali. Era meu último banho “inteira”, ao mesmo tempo, era o último banho com “aquilo” no meu corpo. Lembro-me de ter chorado.

Já operada, acordei com a doutora me chamando e dizendo que tudo se saíra bem. Ao lado estavam meu marido e uma amiga.

Voltei para casa acompanhada não só deles: marido e filhos, mas de dois drenos (que batizei carinhosamente de Tico e Teco). Era horrível dormir com eles; assim, durante sete dias convivi com eles e dormi em uma poltrona, preocupada com eles ou com o que eles poderiam fazer comigo. Depois disso, iniciaram-se as fisioterapias para recuperar o movimento dos braços, a quimioterapia e a radioterapia. Quando iniciei o tratamento de radioterapia e de quimio, resolvi enfrentá-lo trabalhando.

Fui operada em final de outubro. Na primeira consulta com o oncologista após a cirurgia, em dezembro, quando fomos receber o exame que indicaria que tratamento realizar, ele me sugeriu iniciar a primeira sessão de quimio em janeiro de 2015, assim “a senhora passará as festas natalinas tranquila”. Eu lhe disse: “Doutor, gostaria de iniciar 2015 com menos uma. Poderia ser dia 30 de dezembro?!”. E foi. Depois da primeira aplicação, ele me disse que meu cabelo poderia cair, fiquei curiosa e perguntei-lhe como aconteceria: “geralmente, após o 15° dia, a senhora sentirá alguns locais de sua cabeça dormentes e quando passar a mão, ou quando for se levantar, ou quando estiver no banho, não se apavore, possa ser que caiam apenas alguns fios”.

Lembro-me de meu marido ligando e perguntando diariamente: “e aí como está o cabelo?”. Ele sabia que, na época, meu cabelo era muito bem cuidado, todas as sextas-feiras era dia dele: salão, lavagem e hidratação, essas coisas de quem é vaidosa! Era curtinho, lisinho, “Chanel”, gostava de usá-lo atrás das orelhas e achava-o lindo!

Era o 17° dia. Estava em Fortaleza, era noite e estava assistindo à televisão, Sofia dormindo e o Kleber, meu marido, em Quixadá. Tinha acabado de falar com ele, que havia feito a mesma pergunta: “Começou a cair?”. Não. Conversamos e desliguei. Senti uma dormência localizada em um cantinho no lado esquerdo de minha cabeça, passei a mão, alguns fios vieram com ela. Adormeci. No outro dia, cedinho, acordei a Sofia, que levantou assustada e me encontrou com o cortador de cabelos na mão. “Quero que você raspe minha cabeça”. “Como assim, não posso fazer isso e nem sei fazer!”, disse ela meio perdida. Dirigimo-nos ao meu banheiro, liguei o aparelho e disse-lhe “é assim” e passei-o em meu cabelo. Primeiro de um lado, olhei-me no espelho, nossos olhos se cruzaram e caímos na gargalhada. Ela pegou o aparelho e fez o resto.

Foi assim “carequinha” que, mais tarde, quando ele chegou, encontrou-me. Fiz questão de não lhe dizer nada, de trancar a porta por dentro para que ele tocasse a campainha e eu fosse abri-la. Queria surpreendê-lo. Lembro-me de seu susto ao me ver e não me esqueço de suas primeiras palavras: “Nunca vi uma mulher careca tão linda!”. Abraçamo-nos e eu chorava de felicidade!

E se iniciava uma outra fase: chapéus, lenços e turbantes começaram a fazer parte de meu visual. Tinha-os de todas as cores e texturas. Usava e abusava. “Mudava de cabelo” todos os dias e de acordo com a roupa. Achava-os lindos (e ainda acho, de vez em quando, uso-os.). Quando fazia muito calor, exibia minha careca com muito orgulho, afinal, ali estava uma mulher em transformação. Junto aos cabelos, os cílios e as sobrancelhas também desapareceram e como eu dizia, eu parecia “uma minhoca”, mas daquelas bem faceiras, com cabeça colorida e olhos bem delineados, demonstrando a força que havia dentro de mim. Eu estava determinada a fazer a diferença, a não me entregar, a vencer!

Na radioterapia, 28 sessões seguidas, íamos eu e Kleber todos os finais de tarde para Fortaleza, eu fazia a radioterapia, às vezes, às 21h, ou às 23h ou 1h do dia seguinte, dependia da quantidade de pessoas do dia, e voltávamos no dia seguinte cedinho para que pudéssemos trabalhar. Na última sessão, com a mama já toda ferida e dolorida, perguntei à médica se ela me daria alta para eu viajar (lembram da viagem falada no início do texto?!). “Se a senhora aguentar”, disse-me. Três dias depois eu estava no Chile com minha filha e familiares.

Confesso-lhes que não foi fácil, que ainda não é fácil (ainda tomo medicação diária e tomarei por mais 5 anos), mas temos que aprender a fazer uma boa limonada de alguns limões bem azedinhos que a vida nos proporciona.

Passados cinco anos de toda a turbulência em que se transformaram as nossas vidas, hoje posso dizer que não foi por acaso que um câncer apareceu em mim.

No fundo, por mais louco e insano que possa parecer, hoje me reconheço como uma pessoa melhor em todos os sentidos, e isso foi possível após ter sido diagnosticada. À época do diagnóstico, lembro-me de nunca ter perguntado o porquê de aquilo estar acontecendo, mas sempre o para quê. E, no meio de tudo isso, eu me sentia em uma paz inexplicável. Então, se aquilo estava acontecendo, era porque eu tinha muito a aprender com aquela fase, e também as pessoas que estavam junto a mim.

Antes do câncer, sempre me achava muito certinha em tudo, achava eu que não tinha muita coisa para ser mudada em mim. Mal sabia que a mudança seria muito mais profunda do que eu imaginava, e mais ainda, lenta por implicar a mudança de conceitos arraigados, de preconceitos estabelecidos, de modos de agir, e que traria mudanças em todos os setores da minha vida.

Passamos tudo juntos. Posso dizer que eu, o Kleber e meus dois filhos tivemos um câncer em nossa vida. Meu marido me acompanhou em todo esse processo, ficando junto no tratamento, em todas as suas etapas e mazelas. Meus filhos ficaram sabendo de tudo, ficaram muito assustados, porém amadureceram e foram e são maravilhosos, dando-me grande apoio. Acho que tudo mudou dentro de mim. Meu filho diz que sim, que sou outra pessoa. Minha felicidade, entusiasmo e gosto pela vida só aumentaram (e olhem que já eram bem grandes!), tenho uma sede de viver cada dia e o faço como uma dádiva de Deus, agradecendo diariamente a Ele por tudo.

Staniando: Primeiro, nós precisamos saber nos reinventar; depois, temos que entender que podemos fazer escolhas; e, por fim, precisamos acreditar que, após a tempestade, vem a bonança. E disso, nós podemos ter a certeza.

Por: Eliane Rodrigues

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