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Staniando: “Escreva Deus”, ele me falou
Staniando

Staniando: “Escreva Deus”, ele me falou

Era final de tarde de um dia qualquer, estávamos eu e meu marido caminhando na praça que se encontrava movimentada com crianças brincando, homens e mulheres de todas as idades correndo, fazendo atividades físicas, outras passeando com seus cachorros, idosos sentados olhando o movimento e admirando o entardecer. Podia se ouvir o barulho da vida: sorrisos, conversas, gritos, respirações pesadas, ruídos de passos e passadas que se somavam com o canto dos pássaros e o barulho dos carros e motos. Tudo era muito vivo.

Eu continuava caminhando, alternando minha concentração entre a conversa que mantínhamos e a minha respiração (Estou tentando aprender a respirar, acreditem!). Perto da terceira volta, algo me chamou a atenção, na verdade, alguém: em um dos bancos da praça, um mais afastado do movimento, encontrava-se um morador de rua que depois descobri ser “um morador do banco da praça”. Nas voltas seguintes, ao passar por ele, não me controlava e sempre o olhava, mas ele, indiferente, continuava fazendo algo concentradamente: brincando com seus dedos sujos, grossos, envergados, acredito eu, pelo manuseio de coisas pesadas e ásperas. Passei a observá-lo: Não era velho, era jovem, muito sujo, cabelos na altura dos ombros, duros da sujeira, da poeira, imaginei que ele havia dias que não tomava banho, as roupas, sem cor determinada, surradas pelo tempo estavam vestidas descuidadamente, os poucos botões que tinha a camisa estavam abotoados erradamente deixando-a torta naquele corpo franzino, magro, mal tratado pelo tempo e pela vida. O calção, abaixo do joelho, seguia o mesmo padrão: sujo, rasgado e sem cor. Ao seu lado, estava um carrinho de mercantil, velho, enferrujado, cheio de caixas, papeis e molambos.

Eu seguia caminhando e, a cada volta, não conseguia deixar de observá-lo. Quarta… quinta… sexta… sétima volta e as minhas observações e pensamentos continuavam: como ele vivia assim, tão calmo, tranquilo, alheio a tudo e a todos? Visivelmente, ele não estava preocupado com o que pensavam dele ou se aqueles transeuntes o estavam evitando ou o olhavam atravessado. Ele simplesmente estava ali.

Na última volta, falei ao meu marido que ia em casa pegar algo para aquele homem, ele relutou, falando que já tinha anoitecido e que era melhor deixar para o outro dia. Não escutei, estava determinada a descobrir o que tanto me inquietava.

Ao chegar em casa, fui à geladeira, peguei algumas frutas e uma caixa de suco, preparei um sanduíche, dirigi-me ao quarto, peguei um lençol, uma manta, uma toalha, algumas peças de roupas e, aproveitando que meu marido estava no banheiro, desci, determinada, e sabem, com aquela sensação de estar fazendo uma boa ação, aquela que nos deixa aliviada. (Vocês devem saber como é).

Atravessei a praça e fui me aproximando. Ele continuava de cabeça baixa, alheio a tudo. Quando estava a sua frente, dei-lhe boa noite e ele levantou os olhos (pude ver que estavam vermelhos e amarelados). Ele não cheirava bem. Perguntei-lhe se aceitava minhas doações e, de imediato, ele afirmou que sim e estendeu os braços para pegá-las. A voz era baixa, sem muita entonação. Passei-lhe as coisas, explicando-lhe do que se tratavam. Ele as colocou, sem curiosidade, ao seu lado no banco e continuei: “Estava caminhando e vi o senhor aqui, moro no prédio aqui em frente. O senhor é morador de rua?” Ele, ainda procurando algo no carrinho, respondeu: “Não. Moro nesta praça, debaixo desta árvore, neste banco.” “Ah! Entendi”, respondi-lhe, mesmo sem entender. Ele continuava remexendo em seus bregueços e acabou colocando alguns destes em meus braços. Fiquei meio aturdida, mas aí ele recebeu as coisas de volta e me perguntou: “A senhora sabe ler e escrever?”. “Sei sim”, respondi. Então me passou uma caderneta, daquelas bem pequeninhas, com poucas páginas sujas e amareladas, folheou algumas calmamente, estendeu-me juntamente com um cotoco de lápis tão pequeno que mal dava para escrever e falou: ”Escreva DEUS”. Peguei o material que ele me estendia e escrevi: Deus te abençoe e guarde! Devolvi-lhe e ele pediu que eu lesse. Li o que escrevi. Ele me devolveu a cadernetinha e disse: “Escreva DEUS como está escrito aqui”, e apontou para um pedaço grande de papelão que estava, de modo vertical, na parte da frente de seu carrinho de mercantil. Foi quando o vi: estava escrita a palavra Deus em letra de forma. Escrevi do jeito que estava, apenas uma palavra, DEUS. Passei-lhe, que me pediu novamente que a lesse. Li. Ele destacou a folha suja que eu havia escrito e me estendeu dizendo: “Não tenho nada para dar a senhora, mas Ele tem. Peça-lhe algo de que precise”.

Fiquei tão sem jeito que não soube o que dizer. Agradeci e saí pensando em como sou pequena e incapaz em achar que era eu que estava fazendo uma caridade, mas na verdade era eu quem estava recebendo a boa ação.

Chegando ao apartamento, senti a necessidade de levar-lhe uma caderneta, duas canetas, e aproveitei, peguei também um travesseiro (afinal ele dormia em um banco de praça!). Voltei. Chegando lá, apresentei-lhe o que trazia, ele pegou, amaciou o travesseiro, encostou o rosto, pegou o resto do material, a caderneta e as duas canetas, escolheu uma e me devolveu a outra caneta. “Só preciso de uma”.  Fiquei envergonhada. Ele continuou: “Deus tem incomodado a senhora, né? Fazer a senhora me procurar por duas vezes… uma pessoa que ninguém vê. A senhora deve estar precisando da ajuda dEle”. Fiquei surpresa. Enquanto falava, pegou a mesma cadernetinha, o mesmo “cotoco de lápis” e me entregou. “Escreva DEUS”. Escrevi exatamente como ele havia dito e fui logo lhe dizendo: “ O senhor já me fez escrever há pouco, lembra? ” Ele, parecendo não ter escutado, disse mansamente: “Leia”. Li, obedientemente. Como há 15min atrás, ele destacou a folha e me devolveu e me disse: Guarde esta oração, viu? E pergunte a Ele o que quer da senhora. Eu não posso lhe ajudar, mas Ele tudo pode”. E, sem ligar para minha presença ainda lá, arrumou o travesseiro entre a cabeça e o banco e se deitou tranquilamente.

Saí, agora chorando, com a certeza de que não era eu que havia “visto, olhado” para o homem do banco, mas sim Deus que havia me visto e me enviado um “recadinho” daqueles que nos faz repensar em como estamos vivendo e no verdadeiro sentido da nossa existência.

Por: Eliane Rodrigues

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